Dezembro de 2026 vai ser o mês em que o cinema decide quem manda: de um lado, o Doutor Destino com seu exército de Sentinelas; do outro, um imperador careca, cego de olhos azuis e com ar de quem já perdeu tudo. O apelido pegou rápido entre os fãs: "Dunesday". Mas enquanto todo mundo discute bilheteria, pouca gente está falando do que realmente interessa em
Duna: Parte Três — o filme mais sombrio, mais estranho e mais ousado que Denis Villeneuve já se propôs a fazer.
Data, formato e a guerra dos 18 de dezembro
Duna: Parte Três estreia nos cinemas em 18 de dezembro de 2026, exatamente o mesmo dia de Vingadores: Doomsday. A Warner e a Legendary jogaram duro: a IMAX cravou uma janela de exclusividade de pelo menos três semanas para o filme de Villeneuve, o que deixa o blockbuster da Marvel sem as telas IMAX nos Estados Unidos no lançamento. A Disney respondeu empurrando seu selo Infinity Vision, e os dois estúdios agora disputam cada tela grande do planeta.
A procura já mostra o tamanho da fome do público. Os ingressos de IMAX 70mm foram à venda em abril em 19 salas e esgotaram em minutos; uma segunda leva, em 18 de agosto, derrubou sites de venda e criou filas virtuais gigantes. Detalhe técnico que importa para cinéfilo: diferente dos dois primeiros filmes, feitos totalmente em digital, este foi rodado principalmente em filme de 65mm, com sequências selecionadas em 15/70mm IMAX. Linus Sandgren assume a fotografia no lugar de Greig Fraser, que estava preso a outro projeto, e Hans Zimmer segue na trilha — a mesma que já levou o prêmio de Melhor Trilha Original no Golden Trailer Awards só pelo trailer.
De onde vem a história: Messias de Duna
Aviso de spoiler do livro daqui para frente — se você nunca leu, pule para o Veredito. Duna: Parte Três adapta Messias de Duna, o segundo romance de Frank Herbert, publicado em 1969. E aqui está o ponto que muita gente não entendeu: o livro é basicamente uma carta de amor ao fracasso de um herói. Paul Atreides venceu. Virou imperador, sua jihad Fremen varreu o universo, e o resultado foi uma carnificina religiosa que ele previu e não conseguiu impedir. Herbert escreveu o livro justamente para desmontar a ideia de que um messias é uma boa notícia.
A sinopse oficial fala de um Paul tomado por visões, tentando enxergar um caminho — o famoso Caminho Dourado — enquanto uma conspiração se fecha ao redor dele. No livro, os conspiradores são uma aliança improvável: a Guilda Espacial, as Bene Gesserit, a princesa Irulan e os Tleilaxu, mestres da engenharia genética. Nenhum deles tem força militar para derrubar Paul, então apostam em algo mais sujo: aproveitar a fragilidade humana dele. E a fragilidade tem nome, Chani.
O elenco que importa — e as peças novas do tabuleiro

Robert Pattinson interpreta Scytale, um Dançarino de Faces tleilaxu — um metamorfo capaz de assumir a aparência de qualquer pessoa. É o vilão de verdade do filme, e a escolha é inteligente: Pattinson tem exatamente aquele olhar de quem sorri enquanto prepara a faca. Um conspirador que pode ser qualquer um muda completamente a tensão de cada cena em que Paul confia em alguém.

Anya Taylor-Joy entra como Alia Atreides. Na Parte Dois, Alia era uma criança ainda no útero, falando com a mãe; agora ela é uma adulta (o filme dá um salto temporal grande em relação ao livro, que já tinha doze anos de intervalo — os relatos falam em cerca de dezessete), carregando a memória de gerações inteiras dentro da cabeça. Alia é o ponto mais perigoso do enredo, porque a mesma herança que a torna poderosa pode possuí-la. Ou seja: a irmã do imperador é, ao mesmo tempo, aliada e risco.

Já Jason Momoa volta como Hayt, um ghola criado a partir do cadáver de Duncan Idaho — um homem que revive sem as memórias, treinado para servir como arma contra Paul. A cena em que Hayt encara o rosto do amigo que morreu por ele é, no livro, uma das mais devastadoras. Completam o time Florence Pugh como Irulan (a princesa que casou com Paul por obrigação política e sabe bem demais), Zendaya como Chani, Rebecca Ferguson como Lady Jessica, Javier Bardem como Stilgar, Josh Brolin como Gurney e Charlotte Rampling como a Reverenda Madre Mohiam. E os gêmeos Leto II e Ghanima, filhos de Paul e Chani, ganham rosto com Nakoa-Wolf Momoa e Ida Brooke.
O que o filme precisa acertar (e o que pode dar errado)
Messias de Duna é um livro curto, denso e quase todo feito de conversas e intrigas. Villeneuve já disse que este filme é mais tenso e mais focado em ação do que os anteriores, o que sugere que o roteiro, escrito por ele ao lado de Brian K. Vaughan (o criador de Y: O Último Homem e Saga), vai dar mais corpo físico a uma trama que no papel é cerebral. É um risco. Se exagerar na ação, perde o veneno filosófico; se ficar fiel demais, corre o risco de ser lento para o público que veio atrás de vermes gigantes.
O segundo desafio é emocional. A Parte Dois terminou com Paul vencendo e Chani indo embora devastada, e o espectador saiu do cinema com sensação de triunfo — que o terceiro filme precisa desmontar. Villeneuve disse que esse seria seu último Duna, feito quando Chalamet já tivesse envelhecido o suficiente para o papel, e essa sensação de despedida pesa no trailer: Paul careca, sombrio, sem nada da inocência do garoto da Parte Um. É o arco completo de um herói que vira o monstro que tentava evitar.
Duna ou Vingadores: qual vai ganhar a semana?
Os números mostram o tamanho do duelo. Do lado da Marvel, as pré-vendas de formatos premium passaram de 16,5 milhões de dólares em 24 horas e, segundo projeções citadas na imprensa americana, a abertura doméstica poderia chegar a 260–300 milhões. Do lado de Duna, a aposta é no efeito evento: IMAX, 70mm, prestígio de Villeneuve e uma base de fãs obsessiva. Minha leitura? Não é uma corrida em que só um chega. São públicos diferentes, e o que vai definir a bilheteria longa de Duna é boca a boca e crítica nas três semanas de IMAX.
Veredito do Mestre
Se eu tivesse que escolher um único ingresso de dezembro, escolheria Duna: Parte Três sem pensar duas vezes. Vingadores promete o maior crossover da década, e eu vou ver também, claro. Mas um filme blockbuster que se propõe a desmontar o próprio herói e fechar a trilogia com um final trágico é raro demais para ser perdido. Leia Messias de Duna antes — são pouco mais de 250 páginas e você vai entrar na sala sabendo exatamente por que o silêncio vai pesar mais do que qualquer verme de areia.