Oito anos. Esse é o tempo que Brad Bird, o cara por trás de O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille, ficou sem lançar um filme novo desde Os Incríveis 2, de 2018. E a volta dele não é com uma sequência nem com um projeto encomendado por estúdio: é com Ray Gunn, uma animação neo-noir de ficção científica que ele carrega na gaveta desde a década de 1990. Nesta semana a Netflix soltou o trailer oficial, e a sensação é de que a espera pode ter valido a pena.
O filme estreia mundialmente na Netflix em 18 de dezembro de 2026. Antes disso, ganha uma janela curta nos cinemas a partir de 4 de dezembro, em salas selecionadas e com algumas sessões em película 70mm, coisa rara para uma animação digital. Por aqui, a Netflix ainda não confirmou se alguma sala brasileira vai receber o filme, então o mais seguro é contar com a estreia no streaming mesmo.
Do que se trata Ray Gunn?
A sinopse oficial é curta: em Metropia, uma cidade gigantesca num futuro alternativo imaginado a partir de 1939, o detetive particular Raymond Gunn se vê envolvido num caso com alienígenas, assassinato e uma estrela multimídia chamada Venus Nova. Em outras palavras, é um filme de detetive clássico dos anos 40, com chapéu, sobretudo e cidade corrupta, só que ambientado num mundo retrofuturista onde humanos e aliens dividem as ruas (e onde os aliens, pelo visto, mandam em quase tudo). Ray seria, inclusive, o último detetive particular humano em atividade.
O próprio Bird resume o conceito numa frase que já virou o cartão de visitas do filme: é como se alguém misturasse O Falcão Maltês com Buck Rogers. Entre as referências que ele cita estão também À Beira do Abismo (The Big Sleep) e Chinatown. Ele chegou a conversar com Robert Towne, roteirista de Chinatown, para entender como montar um mistério que realmente prenda o público. Visualmente, a cidade bebe do Art Déco e do design "streamline" de nomes como Hugh Ferriss e Raymond Loewy, aquele futuro otimista e cromado que as feiras mundiais dos anos 30 prometiam.
Tematicamente, segundo Bird, o filme fala de identidade: pessoas que escondem partes de si mesmas, e a ideia de que todo mundo carrega vários personagens dentro de si. Não por acaso, o caso central gira em torno de uma celebridade que está no meio de um escândalo capaz de destruir a carreira dela, e talvez até custar a vida.
O elenco de vozes
O protagonista é dublado por Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime), no papel do detetive durão e meio azarado. Scarlett Johansson dá voz a Venus Nova, a estrela pop no centro da conspiração, e o músico Tom Waits, dono de uma das vozes mais roucas e reconhecíveis do planeta, interpreta Eyera, colega alienígena de Ray. Escolha perfeita para um noir, convenhamos.
O elenco de apoio é enorme: Matt Berry (What We Do in the Shadows) como o vilão principal, Patton Oswalt (que foi o Remy de Ratatouille) como um holograma, além de Alan Tudyk, Bobby Cannavale, Michelle Rodriguez, Kathryn Hunter, Aasif Mandvi, Michael Chernus, Kether Donohue, Matt Jones e John Ratzenberger, figurinha carimbada em todos os filmes de Bird na Pixar. Uma curiosidade divertida revelada no Festival de Annecy: o traficante de armas que aparece numa das cenas mostradas lá não é dublado por nenhum astro, e sim pelo técnico de futebol do filho do diretor, um sujeito chamado Buck.
Uma novela de 30 anos até chegar à Netflix
A história de bastidores de Ray Gunn é quase um filme à parte. Bird escreveu o roteiro original com Matthew Robbins (parceiro dele em O Milagre Veio do Espaço, de 1987) lá em 1996, e o projeto nasceu na Turner Feature Animation como um desenho 2D feito à mão. Só que a Turner se fundiu com a Time Warner, o estúdio foi reorganizado e Bird acabou dirigindo O Gigante de Ferro na Warner em vez disso. Ray Gunn foi para a prateleira, mas o diretor nunca largou a ideia: ele negociou os direitos e disse à Warner, basicamente, "ou a gente faz, ou me deixem fazer em outro lugar".
E o nome? Veio de um erro de audição. Bird conta que ouviu "Planet Claire", do B-52s, e achou que era uma versão do tema de Peter Gunn, de Henry Mancini. A música soava como trilha de ficção científica dos anos 50, então o detetive não poderia se chamar Peter Gunn, e sim Ray Gunn, um trocadilho com "raygun", a clássica pistola de raios da ficção pulp.
O projeto só voltou à vida em 2022, quando Bird fechou com a Skydance Animation, onde reencontrou John Lasseter (seu chefe na Pixar) e a dupla David Ellison e Dana Goldberg, com quem fez Missão: Impossível - Protocolo Fantasma. O filme estava previsto inicialmente para a Apple TV+, mas migrou para a Netflix quando a Skydance fechou um acordo plurianual com o streaming. No caminho, o 2D virou animação 3D por computador, feita pela Skydance Animation Madrid com apoio da Cinesite, e o orçamento, segundo relatos da imprensa americana, passou dos US$ 150 milhões.
Tem um detalhe que vai agradar quem ama animação: segundo Bird, o filme é todo animado em keyframe, quadro a quadro, sem nenhuma captura de movimento. E a dedicação ao projeto teve um custo: foi por causa de Ray Gunn que Bird abriu mão de dirigir Os Incríveis 3, que ele escreveu, mas que agora está nas mãos de Peter Sohn (Elementos). Ele também explicou que nunca levou a ideia para a Pixar porque o tom mais adulto não combinaria com o estúdio.
O que já foi mostrado (e o que dá para esperar)
Quem estava em Annecy, em junho, viu os sete primeiros minutos do filme, que abrem com um assalto descrito como visualmente deslumbrante, e uma cena em que Ray, com a própria arma quebrada, tenta pechinchar uma pistola alienígena "L8-13 Fire Blaster" por míseros 40 dólares. É esse equilíbrio entre noir sério e humor que Bird vem prometendo desde 2022, quando disse que queria algo como O Falcão Maltês com Buck Rogers, "só que com um pouco mais de ação e mais engraçado".
A trilha sonora é de Michael Giacchino, que compõe para Bird desde Os Incríveis, e o design de personagens reúne velhos parceiros como Teddy Newton e Tony Fucile. O filme tem 1h59 de duração e recebeu classificação PG nos Estados Unidos (por violência, ação, linguagem e algum material sugestivo), o que surpreendeu parte do público, que esperava um PG-13 pelo tom mais adulto.
Nem tudo foi tranquilo nos bastidores, porém. Segundo o TheWrap, a equipe de Ray Gunn fez pressão para ocupar a janela de lançamento em IMAX no feriado de Ação de Graças que ficou livre quando Nárnia, de Greta Gerwig, foi adiada para 2027. A Netflix preferiu dar esse espaço ao novo filme de David Fincher com Brad Pitt como Cliff Booth. Ray Gunn ficou com o lançamento limitado em dezembro e, antes disso, com duas exibições no Festival de Londres, em 10 e 17 de outubro, que devem trazer as primeiras críticas.
Vale a expectativa?
Brad Bird tem um currículo que pouquíssimos diretores de animação podem igualar: O Gigante de Ferro virou cult, Os Incríveis e Ratatouille levaram o Oscar. Ray Gunn é o projeto que ele mais quis fazer na vida, e depois de três décadas de promessas, finalmente tem data. Se o filme entregar metade do que o trailer sugere, a Netflix pode ter nas mãos um forte candidato ao Oscar de Animação de 2027. A gente volta a falar dele assim que saírem as primeiras reações de Londres.